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MULHERES FALAM MAIS, CRISTO SABIA!

11 jun

Ouvi dizer que a ressurreição de Jesus foi anunciada, primeiramente, a algumas de suas discípulas – e não aos discípulos – porque a notícia precisava ser espalhada rapidamente.

Caminhando pelas páginas dos evangelhos não esbarramos em nada que comprove essa ideia, mas é possível garimpar indícios de como as mulheres sempre gostaram de conversar e adoram pormenores.

Lucas revelou que após voltarem do sepulcro, elas “contaram todas as coisas aos onze e a todos os demais” (Lc 24:9). Se tiveram condições de contar ‘tudo a todos’, obviamente que não deixariam de falar como os anjos estavam bem trajados.

Não duvido de algumas expressões, tipo:

–   Menina, que vestido maravilhoso era aquele! –   Ai, quero um igualzinho quando chegar no céu.

Esse ponto específico da conversa rendeu muito ‘pano para a manga’. Cada escritor ficou com um dos relatos que foram feitos.

As testemunhas ‘detalhistas’ disseram a Mateus (28:3) que as vestes eram brancas como a neve. A Lucas (24:4) foi dito que brilhavam como a luz do sol, ou resplandeciam. Marcos (16:5) registrou que as roupas eram compridas, e João (20:12), que eram brancas.

Falaram a mesma coisa de maneiras diversas. O caso aconteceu há 2 milênios e as cordas vocais femininas continuam afinadíssimas.

(TRECHO TIRADO DO LIVRO “A FÓRMULA DO AMOR” – ELEANDRO PASSAIA \ LANÇAMENTO 07-2012)

LIÇÃO DE CASA

24 set

Selva amazônica. Território venezuelano. Estradas mal conservadas. Ônibus caindo aos pedaços. Passageiros entediados. Todos índios de aldeias do sul do país. Exceção apenas do repórter fotográfico Yukio Okada e eu. Estamos a trabalho. Produzimos reportagens para tv (detalhes que começarei a mostrar nesse blog).

Cruzar o vasto território quase intransponível é uma aventura cheia de lições. Aprendi algo que jamais devo esquecer, para o meu próprio bem. Tem coisas que só parecem ser interessantes na televisão. Pessoalmente são aterrorizastes.

O veículo balança como navio no meio de uma tempestade em alto mar. Chove muito e os buracos brotam a cada metro da estrada. Animais dentro do carro dividem espaço com os viajantes. Algo completamente normal. Para eles!

Sento nos fundos. Espremido em poltronas sem divisórias. Estou no meio de dois nativos com porte atlético. Parecem lutadores de sumô.

Percorremos quase a metade do tempo da viagem. Ainda faltam 4 horas. ”É impossível isso aqui ficar pior”, imagino. Estou errado.

Uma jovem senhora entra com uma criança no colo. Fico intrigado ao ver que nenhum homem se levanta para dar lugar a mãe com o bebê recém nascido.  Na cultura de muitas tribos as mulheres não tem privilégios.

Ela passa por todos. Para bem em frente a última poltrona. É onde eu estou. Lembro da minha mãe contando que a minha tataravó era de uma tribo extinta do sul do Paraná.

Desfaço a expressão de cara pálida. Tento honrar minhas origens. Imagino sangue tupiniquim dançando nas minhas veias.  Mas, meus ancestrais teriam se decepcionado. Não ajo como mandam as tradições.

– Señora, quiere sentarse?

Ela aceita. Não agradece. Mal olha no meu rosto. Começo a sentir saudades daqueles dois gordinhos me apertando.

Só há uma coisa pior do que viajar de pé num ônibus lotado, cheirando suor e animais molhados.  É estar nesse cenário acompanhado de um amigo japonês. Esse povo não pode ver um banco que já começa a dormir.

Pode chacoalhar o carro. Chorar o neném. Latir o cachorro. Um estado profundo de sono toma conta daqueles olhos projetados para fechar rapidamente. Afinal, estão sempre na metade do caminho. Uma coisa é ainda mais intrigante. Basta chegar, que eles despertam.

– Tudo bem ai?

Prefiro fazer de conta que ele se refere especificamente a viagem.

– Sim, chegamos vivos!

A aventura sem precedentes rouba minhas forças físicas, mas não minha alegria. Estou satisfeito. Algo que só eu posso compreender. Desço daquela lata velha parecendo um pombo. Peito estufado.

Meus pais ficariam orgulhosos se me vissem agora, penso.

Recebi uma educação rígida. Meu pai me ensinou respeito, a base da pancada. Muita gente acredita que ele me bateu na cabeça. Eu também acho que sim. Mas não lembro. Minha mãe me ensinou a amar. Tenho um medo: encontrar decepção naqueles olhos tão meigos, por minha causa.

Sobre a viagem, faço um paralelo. A senhora que sentou no meu lugar não soube dizer obrigado. Não porque seja má. Ela aprendeu assim. O comportamento daqueles homens também é reflexo de um mundo que parou no tempo.

Quanto a mim, tenho mesmo muita sorte. Fui criado por um homem e uma mulher simples, mas diferentes.

Seria estranho se eu não preservasse o espírito de menino que adora impressionar os heróis de casa. É claro que eu teria de contar o episódio do ônibus. Do meu jeito. Do jeito que eles me fizeram e influenciaram.

Não permitiram que a minha rebeldia se sentisse impune. Ensinaram que compreensão vale mais do que força. Que a honra sobrepõe a glória. Que ser homem é um exercício de servidão.

Aprendi também que gratidão é um ato de cavalheirismo.
Então, tiro  o  chapéu.  Curvo-me  levemente.
Inutilmente tento não embargar a voz.
E digo:

PAIS, OBRIGADO PRA SEMPRE!

 

Eleandro Passaia

FILTRO SOLAR OU AMOR?

20 set

Tardinha. O sol está fraco. Mesmo assim, me lambuzo antes de começar a caminhada. Já que o formato do rosto não é dos melhores, conservo lisinha a pele que mamãe fez. Resgato lá no cantinho do cérebro a voz de Pedro Bial. Narra o vídeo que virou febre no youtube, ”se eu puder dar apenas uma dica sobre o futuro é está: use filtro solar”.

Um pensamento me instiga. Meio maluco. ”Momentos são como o filtro solar. Quem usa agora, fica protegido daquelas manchas negras que castigam a alma mais tarde”.  Entendeu não, né? Eu nem sei explicar direito. Só sei que é assim.

Apenas com letras não conseguirei provar que a minha sanidade mental não piorou. Volto pra casa decidido. Também farei um vídeo. Não longo. Acredito no poder de sedução da simplicidade. O problema é que as coisas simples, são simples pra quem vê, não pra quem faz.

Recorro aos amigos. Exponho minhas idéias como quem pede donativos. Heros Montiel, um dos jovens cinegrafistas mais talentosos que eu conheço, se compadece. Cede  imagens capturadas no Rio Madeira no final do ano passado.

Yukio Okada entrega pessoalmente suas gravações. Algumas feitas num dia de inspiração do sol. Antes de ir dormir o astro rei pintou o céu de vermelho. Não é exagero. Foi tudo registrado.

Outra colaboração fundamental veio de Alice Fernandes. Guardem esse nome. Ela ainda vai cantar no Faustão. As vezes penso que a minha amiga não casa só de medo de parar de dormir abraçado ao violão. Ela é fera. Precisou de uma  tentativa apenas pra gravar a música de encerramento do nosso trabalho conjunto.

No final de tudo, gostei do resultado. Falamos de momentos. Apenas de momentos. Não os que são passados nas noites, nos bares, acompanhados de gente passageira ou divididos com a própria sombra. Falo dos momentos degustados com quem nos pertence, mas não possuímos.

Assista. Tem 3 ”curtos” minutos. Caso não se sentir bem, cuidado. É sinal de que alguma coisa está errada. Repense seus atos.